O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962. É o único filme brasileiro a receber o prêmio máximo do festival até hoje. O longa é uma adaptação da peça homônima de Dias Gomes, escrita em 1960, e foi lançado nos cinemas brasileiros no mesmo ano da premiação.
A história acompanha Zé do Burro (Leonardo Villar), um homem simples do interior da Bahia que carrega uma cruz de madeira até a igreja de Santa Bárbara, em Salvador, para pagar uma promessa. Ele prometeu levar a cruz se seu burro, seu único bem, sobrevivesse a um ferimento. Quando chega à igreja, o padre se recusa a aceitar a oferta, porque a promessa foi feita em um terreiro de candomblé. O conflito entre fé popular e dogma institucional é o motor do filme.
Uma Palma de Ouro em um festival em mudança
O prêmio de 1962 veio em um momento de transição em Cannes. Naquele ano, o festival dividiu a Palma de Ouro entre O Pagador de Promessas e O Processo de Joana D’Arc, de Robert Bresson, uma decisão incomum que refletia a disputa interna do júri. A vitória do filme brasileiro foi recebida com surpresa pela imprensa internacional e ajudou a projetar o cinema nacional no exterior.
O Pagador de Promessas já tinha sido exibido antes no Brasil, mas o reconhecimento em Cannes deu ao filme uma circulação internacional que poucos longas brasileiros tinham até então. A obra foi indicada também ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1963, mas perdeu para As Sundças de Nuremberg.
Do teatro ao cinema
A peça de Dias Gomes estreou em 1960 e já tratava do choque entre a religiosidade popular e a rigidez da Igreja Católica. Anselmo Duarte, que era ator antes de se tornar diretor, adaptou o texto para o cinema mantendo o tom de fábula e o cenário baiano. O filme foi rodado em Salvador e no interior da Bahia, com elenco que inclui Glória Menezes, Dionísio Azevedo, Norma Bengell e Leonardo Villar no papel principal.
A escolha de manter o sotaque e o vocabulário regional, em vez de “limpar” a fala dos personagens para agradar ao público do Sul, foi um dos pontos que a crítica estrangeira destacou. O filme tratava de um Brasil que não aparecia nas comédias musicais da época, e isso ajudou a firmar uma linhagem de cinema social que o Cinema Novo levaria adiante nos anos seguintes.
O que o prêmio representou
A Palma de Ouro de 1962 não abriu uma porteira de prêmios para o cinema brasileiro em Cannes, outro filme nacional só voltaria a disputar a Palma em 1969, com Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, que não venceu. Mas O Pagador de Promessas permanece como um marco: o primeiro longa brasileiro a levar o prêmio máximo do festival, e o único até hoje.
Para o público de hoje, o filme é uma porta de entrada para entender como o cinema brasileiro dos anos 1960 dialogava com a religião, a desigualdade e a cultura popular. A Palma de Ouro não foi um acidente: foi o reconhecimento de uma obra que já tinha algo a dizer, e que continuou dizendo por décadas.