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Ilustração de uma janela estreita com luz fraca e uma máquina de escrever sobre uma mesa, evocando A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.
Petisco Cultural
27/10/2026 3 min de leitura

A Hora da Estrela: Macabéa e o narrador de Clarice

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, conta a história de Macabéa por um narrador que se mistura à trama. Entenda a estrutura do romance de 1977.

Por Fabio AlmeidaEditor

A Hora da Estrela é o último romance publicado por Clarice Lispector em vida, em 1977, poucos meses antes de sua morte. O livro acompanha Macabéa, uma jovem nordestina que migra para o Rio de Janeiro e vive uma rotina de pobreza e invisibilidade. Mas o romance não se resume à história da personagem: ele é narrado por Rodrigo S.M., um escritor que se apresenta como autor da história e interfere constantemente nela.

Essa estrutura, um narrador que conta a história de outra pessoa e, ao mesmo tempo, expõe suas próprias dúvidas e hesitações, é o que torna A Hora da Estrela um dos livros mais estudados de Clarice. A obra foi adaptada para o cinema em 1985, por Suzana Amaral, e continua sendo lida em vestibulares e cursos de literatura.

Quem é Macabéa

Macabéa é uma personagem construída pela falta: sem beleza, sem dinheiro, sem instrução, sem afeto. Trabalha como datilógrafa em uma empresa, mora em um quarto alugado com uma colega, come cachorro-quente e ouve rádio. Sua vida é marcada pela repetição e pela ausência de perspectivas.

Clarice constrói a personagem com uma linguagem que mistura simplicidade e estranhamento. Macabéa não entende bem o mundo à sua volta, e o narrador traduz essa incompreensão em frases curtas e perguntas ingênuas. O efeito é uma personagem que parece existir à margem da própria história.

O narrador que se mistura à história

Rodrigo S.M. é tão importante quanto Macabéa. Ele se apresenta como um escritor que precisa contar a história da moça, mas hesita, divaga e questiona o próprio ato de escrever. Em vários momentos, o narrador interrompe a narrativa para falar de si, das dificuldades da escrita e da impossibilidade de captar a vida da personagem.

Essa interferência constante cria um efeito de distância e, ao mesmo tempo, de proximidade. O leitor nunca esquece que está diante de uma construção literária, mas também é levado a se envolver com o destino de Macabéa. A crítica costuma apontar nessa estrutura uma das marcas mais originais do romance.

A linguagem de Clarice

A Hora da Estrela foi escrito em um momento de intensa produção de Clarice, que também publicava crônicas e livros infantis. A linguagem do romance combina frases curtas, repetições e uma atenção quase obsessiva aos detalhes do cotidiano. Há passagens de grande lirismo ao lado de outras deliberadamente simples.

A obra também retoma temas presentes em outros livros de Clarice, como a dificuldade de comunicação, a busca de sentido e a condição feminina. Macabéa é, de certa forma, uma personagem que condensa essas preocupações em uma figura socialmente marginalizada.

Por que o livro continua atual

A Hora da Estrela segue sendo lido por motivos que vão além do valor literário. A história de uma mulher pobre, migrante e invisível dialoga com debates contemporâneos sobre desigualdade, migração interna e exclusão social. A estrutura narrativa, com um narrador que questiona o próprio relato, também continua rendendo análises.

Para quem nunca leu Clarice, A Hora da Estrela costuma ser uma porta de entrada relativamente acessível: é um romance curto, com uma história clara, mesmo que a estrutura seja complexa. Para quem já conhece a autora, o livro oferece uma síntese de suas preocupações e uma das personagens mais marcantes de sua obra.

Fontes

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