Em janeiro de 1928, a pintora Tarsila do Amaral finalizou uma tela para presentear seu então marido, o escritor Oswald de Andrade. A imagem de uma figura melancólica, com pés e mãos agigantados ao lado de um cacto sob o sol, impressionou Oswald a ponto de transformar a história das artes no Brasil.
Ao ver o quadro, o escritor e o poeta Raul Bopp buscaram no dicionário Tupi-Guarani um nome que traduzisse aquela presença imponente: uniram aba (homem), poru (que come) e u (carne). Assim nasceu o Abaporu - “o homem que come carne humana”.
A tela serviu de inspiração direta para o Manifesto Antropófago, publicado por Oswald no mesmo ano. A proposta central do movimento antropofágico era deglutir as vanguardas artísticas europeias e assimilá-las à cultura nativa brasileira, transformando influências externas em uma arte genuinamente nacional.
Atualmente pertencente ao acervo do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA), o Abaporu permanece como o símbolo mais célebre do modernismo brasileiro, lembrando que a identidade cultural se constrói na reinvenção constante de nossas raízes.