O ônibus das dez da noite tem uma população própria. Não é o mesmo ônibus das seis da tarde, lotado de gente que volta do trabalho com pressa e sacola. Nem o das duas da manhã, quase vazio, com um ou dois passageiros que parecem estar escondendo alguma coisa. O das dez é uma categoria à parte.
Quem está ali não está com pressa. Está com sono. Ou com fome. Ou com aquela canseira que não é só do corpo, é do dia inteiro. As pessoas entram, pagam, escolhem um lugar e se acomodam como quem já fez aquilo mil vezes, porque já fez.
A janela e a cidade
A janela do ônibus é uma televisão que ninguém escolheu assistir. Passam lojas fechadas, semáforos piscando para ninguém, um cachorro atravessando a rua, um casal discutindo na calçada. A cidade à noite é outra cidade: mais silenciosa, mais honesta, menos preocupada em parecer.
Tem quem durma com a cabeça encostada no vidro. Tem quem ouça música com o fone no volume máximo, alheio ao mundo. Tem quem fique olhando para fora, sem ver nada em particular. E tem quem converse, sempre tem um que conversa, com o cobrador, com o motorista, com o desconhecido ao lado. O ônibus das dez aceita todo mundo.
Os passageiros que voltam em silêncio
O silêncio do ônibus das dez não é um silêncio confortável. É um silêncio de quem já falou demais durante o dia e agora só quer chegar em casa. De quem trabalhou o dia inteiro e não tem mais energia para conversa fiada. De quem sabe que amanhã vai começar tudo de novo.
É um silêncio coletivo, mas cada um está sozinho. Ninguém olha para ninguém. Ninguém pergunta nada. O ônibus vai, e as pessoas vão junto, cada uma na sua bolha, compartilhando o mesmo trajeto e nada mais.
A cidade que fica para trás
O ônibus das dez é o último elo entre a cidade e a casa. Quem pega esse ônibus já passou pelo dia, já resolveu o que tinha para resolver, e agora só quer o trajeto de volta. O ponto final é sempre o mesmo: a rua de casa, a porta, a luz acesa, talvez alguém esperando.
Quem nunca pegou o ônibus das dez talvez não entenda por que ele é diferente. Mas quem já pegou sabe: tem uma irmandade estranha entre as pessoas que dividem aquele trajeto. Ninguém fala, ninguém se conhece, mas todos sabem que estão voltando para o mesmo lugar, a casa, o descanso, o fim do dia.
O ônibus das dez não é o mais bonito, nem o mais rápido, nem o mais confortável. É só o que a gente pega quando o dia já acabou e ainda falta chegar em casa. E talvez seja por isso que ele seja tão difícil de esquecer.