A bicicleta tinha rodinhas e um adesivo de dinossauro no quadro. Era azul, ou talvez vermelha, a memória escolhe a cor que combina com a tarde. O que eu lembro com clareza é da mão no banco.
Alguém segurava o banco enquanto eu pedalava. A voz vinha de trás, dizendo que estava tudo bem, que eu podia ir. Eu ia. E a mão continuava ali, firme, até o momento em que não estava mais.
O instante em que a mão solta
Não houve aviso. Não houve contagem regressiva. Em algum momento entre uma pedalada e outra, a mão sumiu, e eu continuei andando. Levei alguns metros para perceber. Quando percebi, o susto veio antes da alegria, e a alegria veio antes da queda.
A queda aconteceu, claro. Sempre acontece. O joelho ralado, a bicicleta caída no chão, a vontade de chorar e a vontade de levantar ao mesmo tempo. E alguém por perto dizendo que foi bonito, que eu tinha andado sozinho.
Quem segura a gente
A imagem das rodinhas voltou outro dia, sem aviso. Não por causa de uma criança andando de bicicleta, mas por causa de uma conversa em que alguém disse que estava pronto para uma decisão difícil. E eu me peguei pensando em quantas vezes a gente precisa que alguém segure o banco, não para sempre, só até o momento em que a gente descobre que consegue.
O problema é que ninguém avisa quando vai soltar. A mão some sem cerimônia, e a gente segue pedalando com a sensação de que ainda está sendo segurado. Às vezes, é só na primeira curva que a gente entende.
As rodinhas que a gente carrega
Crescemos e trocamos as rodinhas por outras. O apoio do primeiro emprego, a rede de amigos que aparece quando tudo desanda, o conselho de quem já passou pelo mesmo caminho. Não são rodinhas de verdade, mas fazem o mesmo papel: mantêm a gente em pé até que a gente aprenda a se equilibrar sozinho.
O difícil é aceitar que um dia elas vão sumir também. E que isso não é abandono: é o que sempre foi combinado, mesmo sem ninguém dizer em voz alta.
Talvez a parte mais bonita daquela tarde não tenha sido a queda nem o joelho ralado. Talvez tenha sido o momento exato em que a mão soltou, aquele instante em que a gente descobre que o banco não era o que mantinha a bicicleta em pé. Era a gente.